quinta-feira, 15 de junho de 2023

Paisagens do Brasil pelo cultivo de orquídeas - III Campos rupestres

Banaj


Paisagens do Brasil pelo cultivo de orquídeas - II Afloramentos rochosos



De baixo desse morro passa boi passa boiada, e em cima? Tem orquídea brotando do nada




É difícil e ao mesmo tempo simples analizar a estética das paisagens do Brasil ainda mais sendo pela ótica paisagística das orquídeas. Qualquer bom observador poderia chegar nas mesmas classificações. Não temos muitos observadores no mundo, esse é um dos problemas que assola a humanidade. Brasilia é mãe de muitas orquídeas e muitas paisagens, terra boa.

A segunda paisagem orquidófila que iremos ver aqui é uma bem grande e visível de longe, os afloramentos rochosos, ou, em terminologia leiga, os morros. Qualquer ponto aonde uma rocha ou rochedo de tamanho significativo “aflora” do solo, ou seja, se projeta para fora do solo, aí temos como os botânicos e geólogos gostam de chamar “Afloramento rochoso”. Pode parecer que não mas a rocha exposta escaldante e seca é lar de diversas espécies das plantas estéticas do Brasil: orquídeas, bromélias, cactos, arbustos floridos e palmeiras. 









Pode parecer um tanto contrassenso que numa face árida e maciça de rocha cresçam uma variedade imensa de  flores muitas delas nobres e estereotipadas pelos ignorantes assassinos de orquídeas de “frágeis”. As nuvens que tiverem a sorte de passar por ali batem na rocha e ficam “presas” por um tempo na parede maciça, principalmente durante a noite ou em temperaturas mais baixas quando as nuvens descem e ficam mais próximas da terra. Ali tendo contato com a rocha muita da água da nuvem se condensa e vai regando toda a rocha escorrendo em cascatas pelas paredes de pedra. Esse sistema vai fazendo com que a rocha apesar de impermeável e maciça seja um grande captador de humidade durante as chuvas ou de madrugada. E o que adora um local úmido porém de secagem rápida e bem drenado? … sim! As orquídeas! 



Primeiro nascem os líquen na rocha nua. Depois algum esporo de micorriza trazido pelo vento germina nos líquens e então a camadinha de germinação necessária para as orquídeas adaptadas está pronta. Dependendo pra onde a face do rochedo aponta em direção ao sol o sucesso é garantido. Nas faces que batem muito sol o ano todo não costuma ter planta alguma, o calor é insuportável chegando a altíssimas temperaturas que cozinhariam qualquer planta que tivesse a sorte de ter suas sementes levadas para lá levando em conta que é são paredões inclinados muitas vezes em 90 graus. Já nas faces do rochedo aonde o sol intercala nas estações costumam ter uma variedade imensa de plantas adaptadas ao calor, ao sol pleno e a intercalação de seca/umidade. 



As Alcantareas, famosas bromélias gigantes dos rochedos, são especialistas nesse tipo de habitar. Veja como elas vão formando comunidades de indivíduos próximos para aumentar a cobertura sobre a face da rocha e diminuir a temperatura e o calor. Além disso suas folhas secas formam uma “saia” que protege a planta do calor que reflete da rocha escaldante. 

 Veja como o sistema de umidade das nuvens é efetivo. Elas batem na rocha e rapidamente formam-se cachoeiras que escorrem até a base do monolito. Logo que passam as nuvens as cachoeiras secam e a rocha volta a ser uma grande parede seca por dias seguidos até o próximo sereno, serração ou chuva. Um sistema perfeito para epífitas. 

Um adendo para seu uso no paisagismo em colônias de vários indivíduos de alturas intercaladas como usado nesse declive de escada. Fica uma composição venusta! As bromélias imperiais passam um ar de autoridade fixa, uma beleza estática e geométrica, uma poesia do rocha, uma prece das escarpas de basalto negro, damas das nuvens, o céu é o seu domínio 










As condições necessárias para isso ocorrer são extremamente difíceis de serem reproduzidas em habitats artificiais dos nossos jardins. Lá em seus morros e rochas as orquídeas selvagens brotam em temperaturas e condições corretas que seus ancestrais evoluíram por milhares de anos para se adaptar. O vento constante das alturas acaba refrescando as folhas que são desde a germinação posicionadas pela planta para ficarem num ângulo que suporte a transição do sol pelo céu em cada estação de acordo com a posição da rocha. Planta-se uma orquídea saída de uma estufa sombreada numa parede de rocha nua e ensolarada e ela ou morre de insolação por não estar acostumada a sol forte ou de desidratação por não estar acostumada ao ciclo de umidade daquele ambiente. Recriar um ambiente que simule estético-botanicamente esse sistema natural demanda muito estudo de observação além de tentativa e erro. É isso que estou fazendo, o que cabe outra postagem separada dessa. 

Aonde tem um rochedo exposto no Brasil ali pode ter certeza que se encontrará diversos tipos de orquídeas, pelo menos nos rochedos que não tiveram sua natureza devastada pela colonização burra ou pelos coletores de plantas. Na rocha exposta e bruta, dela elas brotam, flores selvagens, flores árduas, flores heróicas. 





sexta-feira, 9 de junho de 2023

Paisagens do Brasil pelo cultivo de orquídeas - I RESTINGA


Disclamer: as fotos utilizadas ness post e nesse blog como um todo NÃO SÃO DE MINHA AUTORIA, são pegas na internet e são usadas aqui de forma educativa e sem fins lucrativos 




5 são os principais ecossistemas aonde se encontram orquídeas no Brasil: restinga, campos rupestres, afloramentos rochosos, base de mata e alto de mata.


Lá elas estão as nobres flores esperando para serem cheiradas


Se existe algo em que o Brasil é rico isso seria em espécies de orquídeas. O país já é o que tem a maior biodiversidade do mundo, o maior número de espécies de plantas concentradas também, 46.975 espécies de plantas endêmicas, ou seja, 55% da flora do MUNDO é nativa do Brasil. Só de orquídeas são aproximadamente 3.500 espécies diferentes em todo o território nacional. Um número surpreendente sendo comparado com outros locais do globo. 




São 5 tipos básicos de ecossistema que podemos classificar a grosso modo aonde estão distribuídas as orquídeas no Brasil. Cada um com características diferentes geológicas, pluviométricas, de umidade do ar, ventilação, disposição de nutrientes, iluminação etc… sendo assim cada espécie pode ser mais amplamente encontrada em um desses tipos de ecossistemas devido as especificações naturais adaptativas. Dependendo de qual caminho evolutivo tomou uma determinada espécie de orquídea a insolação em um ecossistema pode ser demasiado forte para si causa do sua morte, ou a sombra e umidade podem ser tamanhas em outro ecossistema o que não permite que uma espécie que evoluiu para suportar o sol em demasia consiga florescer e assim não se reproduza. Dessa forma vemos uma concentração de formas características em determinados ecossistemas e não em outros e isso será mais observado adiante. 



Todo aparentemente verde. Aos olhos desatentos passam despercebidos seus tesouros. A beleza da restinga, bromélias vivas constrastam com o verde escuro dos arbustos e a brancura virginal da areia.  Restinga é calor e ao mesmo tempo frescor, quem já foi sabe. Ao mesmo tempo que o sol incide diretamente sobre a terra sem uma árvore para sombrear e a areia branca reflete de volta dobrado o calor vem sempre em alguns pontos corredores de vento que corre por cima dos arbustos vindo do oceano refrescando a temperatura corporal. É isso que aquelas plantas sentem. Um calor constante mas sobre um ventilador mais poderoso ainda. Restinga é cheiro de mato, cheiro de sal, cheiro de mar. Calor, sal, areia e mar. 




Caminhos fechados. Aqui quem faz os caminhos é o tupinambá. Ele dita por onde passamos. Ele vira serpente jararaca e rã, carcará e gambá. 

O primeiro ecossistema orquidófilo brasileiro que devemos analisar é o primeiro em que se chegaram aqueles que vieram da civilização para essas selvagens terras de beleza. De suas caravelas e barcos o primeiro solo em que pisavam era a areia do mar cercada de vegetação árida e curta crescendo nos barrancos de areia grossa, o primeiro ecossistema pisado pelos civilizadores, o primeiro que vem do mar, que circunda o Brasil, que acompanha a mata atlântica fazendo sua borda, a RESTINGA. 


Cattleya intermedia florindo entre os cactos da restinga

O vento perto do oceano é constante. Quando não é uma brisa curta e delicada é um vendaval cortante e úmido o que promove uma ventilação constante sobre as plantas podando naturalmente os arbustos numa altura baixa quase que artificial aos olhos desavisados. Fora da proteção dada pelas colônias formadas pelas plantas pioneiras a areia branca lavada pela chuva é escaldante e impede o nascimento de qualquer semente de planta. A areia do permiano que forma todo aquele solo em barrancos sem fim já foi um dia o fundo do oceano que com as idas e vindas do mar retrocedeu a cerca de 15.000 a 4.000 anos em diversos pontos do Brasil formando essas dunas de aspecto alienígena com kilometros de extensão contínuas.


A doçura da dama da restinga com a aridez das folhas carnudas resistentes ao sal dos arbustos e os espinhos das bromélias e cactos a sua volta



Crescem assim, como mato, matagal, touceiras enormes em meio ao solo e as outras plantas comuns, as vezes no sol direto escaldante, nesse caso as folhas ficam mais dobradas e encimadas, os bulbos mais próximos para fazer sombra um para o outro, e o vento constante do mar serve de radiador dos raios solares penetrantes. As vezes não dá e é normal ver queimaduras nas folhas e nos bulbos, ainda assim elas ficam vivas, belas, gigantes e florescem abundantemente. Nem tudo na natureza é ideal mas tudo é perfeito.



Vejam como os bulbos crescem juntos e as folhas nascem pra cima como forma de se proteger do sol causticante. A touceira só acompanha aonde se faz alguma serrapilheira para crescer por cima e vai inteligentemente na bora da areia fazendo com que seus bulbos cresçam numa posição que dê uns centímetros de sombra nas horas mais quentes num pedaço de areia, assim ela pode continuar crescendo para frente sem se queimar e sem direcionar seus bulbos novos para crescer sobre a própria touceira.

Pode parecer irônico mas esse ambiente aparentemente árido é perfeito para as orquídeas. O regime de chuvas é abundante ja que as restingas são na verdade continuações da mata fechada que existe no continente e não consegue crescer tanto na areia tendo um porte menor. Dessa forma apesar da aparente aridez do local as chuvas acompanham o ciclo de chuvas da floresta não passando nunca de uma estiagem de 15 dias seguidos.


Não existe cerimônia, ela só vai crescendo, se esparramando, o espaço entre os arbustos é curto mas cabem todas. Quanto mais melhor, mas umidade, mais diminuição de temperatura, mais proteção contra o sol, quem estuda plantas na natureza tropical sabe que é a casa da mãe joana, a regra é sintropia e fotossíntese na veia. 




Parece mato, mas aos olhos atentos orquidófilos é poesia que brota do solo para o céu

 A areia de grãos grossos de quartzo puro e bem aerada promove um substrato ideal para as orquídeas epífitas que assim que a água cai é totalmente drenada e seca nunca tendo suas raízes encharcadas nem em contato com solo abafado e podre como de um fundo de floresta. Os arbustos de estatura baixa permitem que bastante luminosidade entre por entre suas folhas provocando abundantes florações. As folhas dos arbustos vão formando uma serrapilheira no chão que com a secura do solo vai se transformando num pó de matéria orgânica fino que se mistura com a areia e serve de adubo para as plantas que vai se infiltrando no solo de forma homeopática pelas chuvas. 


As intermédias são as Ladies da restinga. Esguias, róseas e elegantes constrastando com a areia branca, o mato verde e o céu sempre azul. 




A serrapilheira serve de adubo a própria planta, não como numa floresta de solo úmido aonde as folhas assim que caem se amalgamam numa massa constantemente molhada e cheia de animais pequenos, bactérias e fungos decompositores. Não. As folhas e galhos que caem na areia que seca rapidamente ficam meses ali naquele solo sequinho e drenado até começarem a se decompor mais por ações físicas como o vento a chuva e o calor do que por ação biológica devido a alta drenagem do solo que proporciona uma falta de umidade necessária para aqueles seres decompositores de florestas úmidas. É como se fossem os restos de folhas que caem no entrave divisório de um tronco de alto de árvore na floresta, as folhas ficam ali por longos períodos se decompondo lentamente e cada chuva que cai leva aquela sopa de matéria química decomposta pelos tronco da árvore escorrendo rumo as raizes de alguma orquídea que possa estar ali fixada. Esse sistema é o mesmo que ocorre nas areias da restinga. Fascinante!



As Cattleyas na restinga começaram a se diferenciar de suas irmãs que se separaram a uns 10.000 anos e ficaram nas matas. Além de ter as folhas em forma mais encimada e fechada como um cálice elas costumam ter porte bem mais alto para que suas flores consigam crescer acima dos arbustos. O chamado “guttatão” da restinga fica bem mais alto que as guttatas da mata. 







Os botões como azeitonas verdes no meio dos cactos e do matagal fechado dos arbustos litorâneos. Clássica guttata. Poesia de se ver. As plantas principalmente de grande porte aqui prosperam em abundância. Normalmente essas plantas de grandes e coloridas florações precisam da luz forte refletida em suas cores exuberantes para que atraiam os insetos, logo são encontradas em copas altas de árvores das florestas aonde tem bastante luz, mas aqui na restinga pelo porte baixo dos arbustos elas podem prosperar no chão arenoso formando campos e campos de jardins floridos de Cattleyas, Epidendrums, Brassavolas, Encyclias e Grammatophyllums.




“Orquídea não gosta de sol” risos
Apesar de estar no sol pleno está aconchegada pelos arbustos, pela camadinha sequinha de serrapilheira no solo, pela brisa fresca constante que vem do mar. 





Seedlings de guttatas que germinaram sobre um tronco no meio de um matagal de restinga mais fechado. Quando aquele tronco morrer ele cairá e as orquídeas vão continuar crescendo no solo arenoso, talvez com menos luz mas ainda assim bastante luz para florescerem e fazerem o que nasceram para fazer, florescer, frutificar e reproduzir




Arranjo de guttata



Cattleya intermedia com talvez Brassavola perrini




Methaphysica Espírita

  Você disse: a questão é; o mundo é imperfeito. 1- essa imperfeição vem da corrupção da ideia de perfeição ou seja um decaimento; ou faz pa...